segunda-feira, 28 de março de 2016

A Indesejada das gentes





Dias Gomes disse uma vez que Deus era um ótimo dramaturgo, mas um pouco repetitivo, porque todas as suas histórias tinham o mesmo final.

Certa feita estava no parquinho quando uma amiga, que também tinha um filho em idade de cair do escorrega e acreditar que o sobe e desce da vida é apenas um movimento da gangorra, apareceu. Ela vinha com aquele saco plástico da Lojas Americanas que qualquer carioca reconhece a distância. Sentou ao meu lado e na lata soltou: “Sabe o que tem aqui dentro da sacola das Americanas”? Nessa época, não tão remota, não havia crematório no Rio e o serviço precisava ser feito em São Paulo. Quando a urna chegou ela foi buscar as cinzas e com receio do carro ser furtado com “papai dentro” a moça optou por trazê-lo disfarçado para pracinha.

Meu avô Roberto era um homem devoto a tradição. Em domingos de sol era obrigatório o mergulho na praia de Ipanema. Ele rogava para ‘passar dessa para melhor’ em um domingo ensolarado, porque se ele não ia poder ir à praia naquele dia, desejava que mais ninguém fosse.

Fecho com Hebe Camargo e adoraria plagiar na minha lápide sua frase: “Não tenho medo de morrer, tenho peninha”. Já minha prima Miriam e outros desafortunados insones provavelmente vão copiar o epitáfio do acadêmico Humberto de Campos, que ficou famoso como nome de rua no Leblon: “E quem por aqui se afoite / Não faça barulho enorme / Pois essa é a primeira noite / Que Humberto de Campos dorme”. E por falar em acadêmicos, dia desses uma moça que visitava a Academia Brasileira de Letras perguntou se os escritores da Casa eram imortais desde o momento que ingressavam na ABL ou só depois que morriam.




quarta-feira, 23 de março de 2016

Espelho, espelho meu

No início dos anos 90 o falecido Jornal do Brasil publicava a coluna Perfil do Consumidor. O entrevistado, sempre uma personalidade, tornava públicos seus hábitos. Quando perguntaram a Tim Maia seu vício, ele na lata respondeu “Vicio? Punheta”! Do humorista Bussunda podíamos esperar o inesperado. A torcida do Flamengo (e por que não a do Fluminense, Vasco e Botafogo) vibrou com a memorável resposta a indagação “lugar mais estranho onde já fez amor: São Paulo". A bola entrou onde a coruja faz o ninho. Nelson Rodrigues, outro craque tricolor, já tinha sido cruel com “a pior forma de solidão é a companhia de um paulista”.

Fernando Pessoa, com sua esquizofrenia literária, deve ser o pai da construção da identidade contemporânea. Nos dias de hoje não basta o RG, quem não tem um perfil virtual não existe de fato. Dolores, tadinha, andou arrastando um caminhão por um rapaz por conta da foto dele no messager. Não que ele fosse um Marlon Brando, George Clooney ou James Dean, ou ao menos desse pelota a ela, mas na foto ele apoiava a cabeça na mão e a olhava de frente sempre tão atento que ela se confundiu. Tudo bem, é desculpável, igual gente que dá boa noite para o William Bonner quando termina o Jornal Nacional.

A artista japonesa Yayou Kusama se diz diagnosticada como compulsiva obsessiva. O barato dela são as bolinhas, o nosso lance é a exposição dos muitos e incríveis “eus”.  Facebook, Instagram, Linkedin, Parperfeito, Twitter... Deve haver restado pelo menos um cidadão sensato que esteja saudoso de quando bastava dirigir-se ao DETRAN, tirar uma foto e carimbar o dedão. Mas confesso que fiquei com uma invejinha de G.B. que postou no Tinder a foto de uma empada e lá na meiuca do recheio estava o rosto dela verde, e o texto “Eu posso ser a azeitona da sua empada”. E a ideia desdobrou-se em “Sou o ovo frito da sua marmita”.

No quesito “abalou Bangu” ganharam coraçãozinho um paciente de Suellen chamado de “gás nobre”, porque o nome dele é Hélio, e o motorista da instituição que só anda na elegância das marcas, o “Ostentação”. 


terça-feira, 22 de março de 2016

É tudo culpa da Física

Minha avó, uma das mulheres mais chiques que conheci, era do tempo em que se usavam camisas de seda e mocassins, e suas unhas estavam sempre impecavelmente pintadas de vermelho escarlate. Filha de um pianista russo, nasceu em São Paulo e lá teria vivido para sempre se um namorado seu não tivesse tido a descortês ideia de batizar no prado uma égua de corrida com seu nome, Riva.

Ofendida, D. Riva, no Rio passando férias, conheceu Dr. Bob um genuíno malandro carioca, nascido em Nova Iorque, que andava de cinto e sapato brancos. Roberto apresentava um diploma de dentista e um frustrado currículo de pugilista, pois fora forçado a abandonar o ringue na Lapa em virtude do nariz avantajado. Diziam que no dia que a Indesejada das Gentes o visitasse, seu caixão não fecharia a tampa por conta da monumental napa.

Roberto – o narigudo vinha de uma dinastia provida de um currículo familiar invejável. Minha bisavó, Dedé, passava os dias lendo e fumando e, de certo, não foi uma das mães mais amorosas de que se tem notícia. Morreu com noventa e uns quebrados. Era uma das primeiras da fila para subir, quando feneceu a irmã, última parenta de sua geração. Dr. Bob foi, cheio de cuidados, comunicar-lhe o óbito. Dedé apenas interrompeu a leitura por alguns segundos e, respondeu: “antes ela do que eu”.

A irmã de Dr. Bob era uma senhorinha bem magrinha, que vivia de casaquinho no verão de 40º do Rio, falava baixinho e tingia os cabelos grisalhos de lilás, moda entre as senhorinhas de então, que também podiam optar pela coloração azul.  Tia Anita era um bibelot, pequena e delicada, mas tinha em seu histórico o falecido tio Kid com quem contraíra núpcias.

Para início de conversa Kid (garoto) era uma alcunha de lutador de boxe. Numa busca rápida na internet encontrei uns poucos apelidos fofos para os esportistas da modalidade, como Gentleman, Mantequilla, Príncipe e Kid Chocolate (seguida da explicação que ele não era nenhum bombom). E uma lista interminável de nomes como: Six Heads, The Executioner, Hands of Stone, Touch of Sleep, Navalha, El Terrible, Ferocious, Lights Out, Pac-Man, The Pazmanian Devil, TNT e The Cinderella Man. Titio Kid não era, digamos, um rapaz fino. O meliante quando não estava de luvas de pugilista, tomava conta de um ferro-velho, do qual era proprietário.

Há um conhecido princípio da alquimia que diz que o semelhante dissolve o semelhante (similia similibus solvuntur). É só botar uma colher de açúcar em um copo d´água para conferir. Os opostos é que se atraem é o que diz minha árvore genealógica. Talvez a regra das partículas de mesmo sinal se repelirem e as de sinais opostos se atraírem sirva para além de sabermos como encaixar as pilhas no controle remoto da TV. Talvez a Física seja mesmo uma ciência exata quando trata de eletricidade e magnetismo e os profissionais da área estão marcando touca, porque bem podiam estar ganhando uma grana extra com mapa astral.




quinta-feira, 17 de março de 2016

A chana da minha avó

O autor do choro Carinhoso veio ao mundo no bairro da Piedade, subúrbio carioca, com a responsabilidade de carregar o nome do pai, Alfredo da Rocha Vianna Filho, mas de pronto abandonou o nome da certidão. A avó Ediwirges apelidou-o de "Pizindin", que era como chamavam os pequenos bons lá na África. Já para os camaradas da rua no Catumbi, era o “Bexiguinha”, por causa das marcas deixadas em seu rosto pela varíola. Juntaram-se os dois apelidos, e nasceu Pixinguinha.

Outro menino comportado, Zé Quietinho ou Zé Quieto, compôs “A voz do morro” e virou Zé Kéti. A letra K era vista como de boa sorte para a carreira, haja visto os estadistas Kubitscheck, Krushev e Kennedy (esse não teve tanta sorte assim, mas...)

Espera-se que aquele que batiza um filho dê a ele um bom nome. O irmão da MM, por exemplo, apelidou o cão vira-lata de Jacaqueroaga para prestar uma homenagem tupiniquim ao escritor norte-americano Jack Kerouac. Como o pai dessa família – o avô do cão – não sabia dirigir, Jacaqueroaga não viajava doidão pelas estradas americanas, apenas passeava pela Rui Barbosa, de certo balançando o rabo. 

Existem pais ternos que, cheios de amor no coração, escolhem um nome lindo para o seu bebezinho. Aí a vida dá uma cambalhota e o nome que era amoroso, elogioso ou mesmo bíblico, de uma hora para outra, ganha outra conotação. Foi assim com a Chana.

Chana, em hebraico, significa "graciosa, misericordiosa". Na Torá, Hannah, esposa de Elcanã, sofria por não conseguir dar ao marido uma criança, enquanto a outra esposa do sujeito tinha sete filhos. Angustiada por sua esterilidade, rogou a D'us que a abençoasse. Deu à luz um menino, a quem chamou Samuel, cujo significado é "Eu o pedi (tomei emprestado) a D'us".

Como vocês podem ver, Chana era um lindo nome hebreu até, sabem os céus por que motivo, tornar-se, aqui onde caetés comem bispos, mais um dos muitos apelidos da perereca. Aliás, órgãos genitais devem ser os campeões de apelidos, seguidos a quilômetros de distância pelo demo e pela morte. Perseguida, periquita, capô de fusca, chiquitita... Desde que a serpente apareceu na história, o povo gostou dessa coisa de se conhecer biblicamente e de falar sobre o assunto.

Acontece que, um dia desses, Júlia estava na escola quando o celular tocou. Era a avó. Os colegas de classe, que provavelmente não tinham nada de mais interessante para fazer, passaram a acompanhar o diálogo: “Vó, você está no hospital”? Silêncio na sala – o assunto era sério. Do outro lado da linha (apesar de celular nem ter fio, mas assim é mais poético), a avó explicava que estava tudo bem e que só tinha ido visitar uma amiga. Do lado de cá da linha, Júlia apenas repete o nome da amiga: “Ah, a Chana”. Pronto, foi assim que se espalhou a notícia de que a chana da avó da Júlia estava doente.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Nem tudo que reluz é ouro

O marido de Jéssica trabalha em Jacarepaguá, e eles moram em Copacabana. Quem vive na Zona Sul e trabalha na Barra da Tijuca sabe o que isso significa. Sou totalmente a favor de rever a geografia da cidade e emancipar esse bairro, torná-lo outro município. Não sou nenhum Barão do Rio Branco, tampouco tenho a pretensão de redesenhar o mapa do país e (re)demarcar o território nacional, mas que a Barra podia ser anexada a Miami e nos deixar “fora dessa”, ah podia!

Bem, divagações cartográficas a parte, voltemos à história da Jéssica. Ontem ela deu carona à estagiária, que encontrou em seu banco uma garrafa PET de Coca-Cola de um litro contendo, no lugar do refrigerante, um refresco amarelado. A jovem universitária, tímida, perguntou onde era para guardar o suquinho, ao que Jéssica respondeu: não deixe tombar e vazar, porque esse é o banheiro portátil do meu marido! Sem comentários.

Uma boa história merece uma segunda como resposta. O fato é que Janete começou a desconfiar de que o airbag do períneo não estava lá essa Brastemp quando foi mergulhar um dia desses. O truque para evitar a dor de ouvido era a descompressão. Mecânica simples: fechar o nariz e tentar soltar o ar, que acaba não saindo pela narina e desentope o ouvido. O processo, para surtir efeito, precisa ser repetido a cada metro de profundidade. Afunda e assopra. Afunda e assopra. Mas para Janete o resultado da equação gerou um efeito colateral: era soprar de nariz fechado para desentupir o nariz e deixar escapulir um xixizinho, que ficava ali armazenado na roupa de mergulho. E, ao contrário do sistema feudal – com muita terra concentrada –, o líquido ia se espalhando democraticamente por todo o corpo. O lado positivo é que a moça ganhou, em águas geladas, uma roupa térmica organicamente aquecida.

Para terminar o ciclo de três histórias, JC trouxe memórias da infância. O pai levantava sempre o assento da privada, mas nunca abaixava. E o que acontecia em uma casa com uma mulher adulta e dois projetos femininos? Resposta fácil, valendo apenas meio ponto. No meio da noite, era comum a pescaria de meninas que caíam dentro da "casinha".

Era para ser o fim desse assunto. Mas toda criança sabe que cocô, xixi e bunda são temas pra lá de interessantes. Então, a pedidos, acrescento uma curiosidade instrutiva que não podia passar batida.


JoutJout Prazer nos ensinou, no Youtube, que não são as pererecas que estão ficando sem mira, a culpa é toda das moças do Pello Menos. Os pelinhos funcionam como um funil. Depilar toda a bacurinha pode ser arriscado naqueles momentos em que você precisa fazer uso das privadas públicas e não pode sentar. O equilíbrio instável pede aquele tufinho para assegurar que tudo vai pingar no alvo. Ah, Claudia Ohana tinha lá seus motivos para exibir-se peluda na Playboy, em 1985. Aposto que a profusão de pelos pubianos deve ter mais utilidades do que desconfiamos e inadvertidamente nos depilamos à brasileira.





sexta-feira, 11 de março de 2016

Arquitetura Darwin

Lázara, a agente de viagens do Cerrado, nos enviou uma mensagem pelo celular que só lemos ao posar: “Bleno vai buscá-las”. Bleno ou Breno - essa era a questão! Todo mundo digita errado no celular, mas o R tá a quilômetros do L no teclado! Era Bleno, mesmo! Ele nos pegou em um carrinho de passeio. A noiva veio junto, muito provavelmente para garantir que nenhuma das cariocas iria roubar o homem dela. É justo ser precavida nos tempos de hoje. Assim, depois de cinco horas de voo fomos, as três que temos ombros largos, compactadas no nosso transfer de Palmas para Ponte Alta. E é chão. 

Chegamos às duas da madrugada, horário que faz de qualquer cama um paraíso. Enfeitando o lençol, que era econômico no número de fios e também na largura e comprimento, um regalo de cortesia. Adoro brindes, falo logo. Tenho essa mania, como diria JC “de pobre” de guardar shampoos, sabonetes e hidratantes de hotéis. Uma vez trouxe uns dez vidrinhos de geleia (ou melhor uns quinze ou seriam vinte?) de uma viagem a Paris. Sabem o que fiz com eles? Guardei todos no armário da dispensa e fiquei ali colecionando-os. Ai Marlene, nossa cozinheira (também conhecida como a “rainha do cangaço” pela delicadeza) quando tinha aquela larica de doce, pegava um daqueles miniaturas de confiture Bonne Maman e comia com o dedo. Muito chique! 

Mas mesmo para uma colecionadora compulsiva como eu, os brindes da pousada eram o fim! Ganhariam o top ten na categoria mixuruca. O kit surreal, sem assinatura de Salvador Dalí, era composto por: um carpaccio de sabonete, que pela espessura podia ser confundido com uma hóstia consagrada, e um caramelo! Os sabonetes por lá ficaram, mas a minha caçula traçou as balas. 

Como não tinha armário, Júlia decidiu guardar as roupas nas prateleiras da geladeira. O que não foi uma boa ideia, porque dias depois a Isabel decidiu guardar mortadela no mesmo local... 

Quando era adolescente, com amigos durangos kids, tive a oportunidade de descobrir que o mundo da hotelaria não se resumia a classificação das cinco estrelas. Existe um alfabeto inteiro abaixo de uma estrela. Um conhecido morou em um hotel que era classificado com a letra D... e vou poupá-los da descrição do quarto. 

Onde secar as toalhas? Certas questões simples do dia a dia, algumas vezes se tornam complexas, quando a arquitetura não está a nosso favor. Estando as paredes da nossa pousada um pouco úmidas, os ganchinhos do banheiro se soltavam com o peso das toalhas.  Onde secar as roupas molhadas? Lázara, a agente de viagens do Cerrado, solucionou a questão de forma digamos original, dando a ideia que pendurássemos nossas coisas no fio da internet. E, verdade seja dita, a internet nunca caía!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A saga dos hasmters

No ano em que me separei do pai das meninas, a caçula perguntou se o Papai-Noel trazia coisas vivas. De bate pronto, respondi que não. Pequenos animaizinhos não sobreviveriam à longa viagem de trenó, e “coisa vivas grandes”, além de ocupar muito espaço, fariam uma bagunça tremenda, comprometendo a entrega dos presentes. Foi uma resposta deveras convincente – ou, ao menos, bastante plausível –, e crianças são seres crédulos. Mas eu sou uma trouxa. Deve ser culpa do ascendente, do horoscopo chinês ou de alguma pendência de encarnações passadas....  pois não me aguentei e voltei de marcha a ré. Pensei: Tadinha, este ano todas as outras crianças (exceto ela e a irmã) vão estar com o pai no Natal, não custava nada o Papai-Noel fazer uma forcinha e trazer um bichinho.... E eu, que não sou nada competitiva, logo virei o jogo da minha derrota. Vai ser a única criança com um presente que anda. Vamos arrasar!

Então decidi por um hamster. Um só, porque roedores são um perigo no quesito empolgação, eles se reproduzem em progressão geométrica. Basta um casal e um piscar de olhos e já temos uma paródia dos pássaros de Hitchcock.

Na noite natalina, o Papai-Noel decorou lindamente o texto e desempenhou seu papel à altura dos atores ingleses. Quando tirou de dentro do saco vermelho a gaiola com a hamster castanha, fez-se um silêncio na sala. Isabel, com seus cinco anos, não piscava os enormes olhos pretos e chupava os dedos em ritmo acelerado.

Assim veio ao nosso mundo, nesse debut triunfal, Esmeralda, batizada com o nome da protagonista do desenho animado que era a sensação daquele verão. Inauguramos, nesse dia, na nossa nada pacata vida doméstica, a dinastia das hamsters!

Deveria continuar dizendo que se passaram anos, só que não. Esmeralda não durou muitos verões. Culpa minha. Um dia, sabe lá por que motivo, achei que ela ia se distrair admirando a vista e pus a gaiola no peitoril da janela. Acontece que hamsters são fugitivos em potencial. Os bichos abrem qualquer tranca, e daí para voar sete andares foi um instante. A senhorinha que morava no térreo avisou ao porteiro que tinha caído um brinquedo. Lembrei do coiote estatelado do Cartoon Papa Léguas.

Esmeralda foi para o céu dos roedores, era uma ratinha fofa, e eu arranjei mais um problema para a coleção. Isabel estava na escola, tínhamos poucas horas para encontrar uma sósia. Não devia ser muito difícil. Para garantir o sucesso da missão, nos dividimos em zonas de atuação. A secretária do meu pai (que faz de bolo a maquiagem) foi procurar no Centro, a cozinheira lá de casa pegou um táxi e seguiu para o Rio Sul, o namorado novo foi checar as petshops na Tijuca, e eu fiquei coordenando os trabalhos. Só que justamente essa semana as hamsters cor de areia dourada estavam em falta. A cozinheira, para não chegar de mão abanando, me apareceu com duas ratas cinzentas que davam medo e nem passaram da porta.

Quando a mãe de Esmeralda voltou da escola, sentamos para conversar. O assunto era delicado e exigia concentração. Expliquei que a ratinha estava doente, que tinha ido ao veterinário e que talvez ela mudasse de cor.  As crianças são seres esquisitos e acreditam em coisas bizarras, graças a Deus! Não estudo psicologia, mas tenho certeza de que Freud, que teima em jogar toda a culpa do mundo nas nossas costas, afirmando, sem pestanejar, que as mães são a causa de todas as neuroses dos filhos, desta vez, só desta vez, teria razão. Pensando bem, também teve o ano em que eu viajei para o Vietnã e instruí ao pai que não contasse a Isabel que era aniversário dela, para depois comemorarmos juntas, mas ela acabou descobrindo pela data do jornal... O que importa é que, para minha surpresa, Bebel aparentemente não só não deu muita pelota para a notícia, como também cogitou se então a hamster poderia voltar na cor branca.

A segunda geração. Esmeralda voltou duplicada, branca e castanha. A culpa me fez dobrar as confusões. Malheureusement a clone castanha não era tão boazinha e, volta e meia, Esmeralda 2 – a Missão tascava uma dentada em um desavisado. Já a amiga branquinha tinha uma saúde de Dama das Camélias e morreu jovem de morte morrida – e não suicidada como a antecessora. É importante dizer que Isabel passou 10 anos sem suspeitar de nada, até que um belo dia a fofa da avó revelou a tragédia da hamster voadora. Se mãe dá trauma, imagina avó (duas vezes mãe)!

Partimos para a terceira geração das hasmters... Para vocês verem como uma boa ideia dá frutos em cascata... Outubro, presente do Dia das Crianças: Esmeralda 3. Essa tinha temperamento dócil, mas, tal qual suas antepassadas, à noite parecia ter bebido de canudinho meia dúzia de energéticos e corria na rodinha como uma malhadora compulsiva. E o cheiro de xixi de rato empesteava o ambiente para todo o sempre, amém!

Um dia, estava trabalhando quando recebi o telefonema: “Mãe, aconteceu uma coisa muito, muito triste. Joaquim comeu o presente do Dia das Crianças da Isabel”. E assim, de morte matada, foi-se embora para a terra dos pés juntos, despachada dessa para melhor pelo Dachshund, também morador da maison, nossa última Esmeralda!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

No coração do Brasil

Um daqueles dias em que minha adolescente de estimação estava me enlouquecendo, passei umas nove mensagens no WhatsApp pedindo um help à psicanalista dela. Recebi uma resposta lacônica: “Negocie com ela”. Digamos que M – a psicanalista – não é lá muito prolixa... Aí me lembrei da mãe de uma amiga de JC que tentava ser moderninha e só passava mensagens com emojis, aqueles desenhos cafonas do aplicativo do celular. A filha gastava horas, com a ajuda dos universitários, tentando decifrar o enigma materno, que nem a Esfinge de Tebas teria proposto. Então, encarei a resposta de M, desta forma: "Decifra-me ou devoro-te!".

Nós, judeus, temos um humor um tanto peculiar, muito apreciado pelos fãs de Woody Allen e Groucho Marx... Em outubro, minha mãe – no caso a avó judia da história – sugeriu um programa incrível de “presente” para a neta e a levou para Inhotim. Como minha adolescente de plantão não gosta de arte contemporânea, não gosta de calor e não gosta de andar, ela simplesmente, para nossa surpresa: odiou!

Então, quando as férias de verão chegaram, antes de presenteá-la com outro elefante branco, o “negocie com ela” ecoou em meus ouvidos. Como Édipo às portas de Tebas, eu teria que resolver o quebra-cabeça ou seria devorada. E não era assim tão difícil, o problema é que a resposta pode estar ali, na nossa fuça, e a gente não enxergar. Negociar era o primeiro passo. Às vezes, em se tratando de batalhas e guerras, nós, mães, podemos deixar de ser tão Wladimir Putin para ser mais Mujica...

Nessa barganha, de cara, descartamos as praias. Minha twenty-four-seven teenager não gosta de areia, porque afunda; não gosta de mar, porque a água é salgada e não gosta de calor, porque é calor. São três “nãos” em um só cenário... Deleta essa opção. Acabamos chegando à conclusão de que ela queria uma praia de rio, com água doce, mas que não precisasse andar muito – ou seja, nada de trilhas. Abrimos o mapa e encontramos nosso destino: o Jalapão!

Pergunta valendo 10 pontos: em que estado fica o Jalapão? Vou logo explanar que vários amigos do Face confessaram depois que achavam que eu estava na Ásia. Afeganistão, Azerbaijão, Cazaquistão, Paquistão, Quirguistão, Tajidquistão, Turcomenistão, Uzbequistão e Jalapão! Faz todo sentido! Sufixos são elementos isoladamente insignificantes que, acrescentados a um radical, formam uma nova palavra. Sua principal característica é a mudança de classe gramatical que geralmente opera. Nesse caso específico, o singelo “ão” conseguiu uma façanha extraordinária: deslocar uma área de quase 34 mil km² para o outro lado do planeta em um piscar de olhos.

Mas não respondi à pergunta. Em que estado do Brasil fica o parque do Jalapão? Gláucia – que se expressa em um português corretíssimo –, foi uma das poucas pessoas a acertar a questão: no Tocantins. Eu, enquanto isso, nem tinha conhecimento de que o estado de Goiás havia se dividido. Mas minha desculpa é boa porque esse racha foi em 1988, quando eu já não sentava nos bancos escolares e, portanto, não estava muito atenta à geografia que acabara de pintar no azul da nossa bandeira a vigésima sexta estrelinha. É preciso confessar, abençoamos o dia em que finalmente nos libertamos do Ensino Médio, e a infeliz tabela periódica, a ordem dos planetas no sistema solar, os afluentes do Rio Amazonas, assim como os estados e suas respectivas capitais não nos afligem mais. O pior é que tá tão bem decorado que não consigo deletar da memória ram o macete do menu completo que minha velha trouxe “Sopa, uva, nozes e pão”. E Plutão faz essa sem-vergonhice de deixar de ser planeta e tira toda a sustância do meu jantar. Lá se foi o carboidrato. Uma dieta sem glúten.

Por sorte, ninguém quer ir para o Centro-Oeste na estação das chuvas, e as passagens aéreas estavam uma pechincha: R$400,00 por pessoa! Ida e volta, porque ninguém quer ficar lá... D. Ana Maria, a avó, conhecia Lazara, a agente de turismo que é a cara do cerrado, e em uma noite tudo estava resolvido. Ou quase tudo, porque nesse verão a JC – esquadrão da moda – informou-me que boné era o “ó” e que o "certo" são as viseiras, mas nós só tínhamos uma em casa. Entretanto, JC não tinha expertise na passarela do Brasil central, como logo testemunharíamos...

Nosso voo fazia escala em Brasília. Quando todos os passageiros que iam para Palmas, capital do Jalapão, sentaram em suas devidas poltronas, percebi que a estética do coração do Brasil era um pouco distinta. Onze horas da noite, dentro do avião, sem nenhuma chance de um ínfimo raio de sol, metade dos passageiros estava de boné, e nenhunzinho, de viseira! Avisei às meninas que as enquadraria na moda local assim que chegássemos em terra firme e adquiriria um boné pra cada uma com dizeres obrigatórios dos recuerdos de férias “I Love Jalapão”.




sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Filhos... Filhos? Melhor não tê-los! Mas, se não os temos, como sabê-lo?

Ontem, Patricia e a filha XX tiveram um embate. Não posso citar nome de menores; embora o Governo tenha votado pela maioridade penal, sou contra. XX cismou que só tinha um short que lhe caía bem, mas justamente esse estava de molho no balde. Ao que parece, o estado líquido da veste não era um dado que fizesse a jovem desistir do figurino. A mãe avisou que a infeliz não ia sair vestida de H2O. Como toda adolescente, XX é bocuda e retrucou na lata: tou de Carefree. No toma lá, dá cá, a progenitora também não saía perdendo, tinha feito curso de Direito e era muito boa em argumentação, de modo que, para defender seu ponto de vista, entrou na área da Biologia. Esclareceu que estava ciente de que a perereca era um ser anfíbio, mas apostava cinco contra um que havia grandes chances de a dita-cuja contrair um resfriado. Um absorvente fininho de uso diário, de certo, era proteção insuficiente.

Ocorre que, em algumas partidas, a contagem de pontos não é razoável. Por exemplo, em um jogo de tênis, o primeiro ponto é o 15, o segundo ponto: 30. Até aqui tudo ok, estamos nos múltiplos de 15. E aí vem o terceiro ponto: 40? Que nexo tem? Eram analfabetos matemáticos os inventores do jogo? E o quarto ponto, o que fecha o game, que nem número tem? Por isso que JC sempre diz que só entende competições em que ganha quem chega primeiro. E naquele ringue onde duelavam mãe e filha, ninguém chegava a lugar algum.

Porém, para passar pela porta, a “de menor” precisava ceder um pouco. Analisando friamente a situação, XX recuou um passo e foi, vestida com o tal short aquático, secar os países baixos. Como? Com o secador. E antes que XX testasse como segunda opção a sanduicheira, Patricia entregou os pontos e deixou a filha e o short irem para night.

Contam que uma vez, ao sair do teatro, perguntaram à escritora de folhetins Janete Clair o que ela havia achado da peça. A grande autora de novelas da TV brasileira, muito prática, respondeu: que pena gastar um enredo tão bom em apenas duas horas! Pois a vida imita a arte, ou melhor, as telenovelas. A história tinha mais um capítulo. E no dia seguinte, não foi preciso nem esperar o horário nobre... antes do almoço, a mãe encontrou pedaços de cigarro no bolso do tal short.

Patricia é uma mulher democrática, ela defende que cada um tem direito a sua opção alimentar, política, sexual, religiosa, literária, sexual, e futebolística. Mas fumar não é uma escolha, é uma burrice! Assim, justificadamente iracunda, digitou uma mensagem para XX, que estava na escola, comunicando que a jovem estava de castigo. A criatura respondeu por WhatsApp que o cigarro era da amiga (que não tinha bolso) e que nem deu para fumar, porque estragou no short molhado...




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Cão chupando manga

Tive que operar o meu cachorro salsicha. Descobri que dentro da barriga do "Cruzcredinho", que estava gigante, tinha um caroço de manga. O caroço já estava fazendo aniversário, porque as mangueiras do Parque Guinle deram frutos até fevereiro, como estamos em julho... Lá se foram o verão e uns quatro meses. Divulguei que, infelizmente, estava indo operar um dos últimos machos-espada do pedaço. Pois é, a manga não era Carlotinha! Na noite anterior, CA, uma amiga, falou que não ia trazer a cão-guia dela aqui, porque o pug Zé procurando uma namorada (e ela não quer filhotes sem focinho) e ela (também) não quer que o Quincas plante um pomar na Golden retriever dela. Sogra exigente que é, vai acabar com a filha encalhada, porque, como anuncia uma amiga do mercado financeiro: o mercado não está comprador. Eu, por exemplo, já estou economizando para o dote das minhas duas filhas. Quem poupa tem... genro!

Aí cheguei em casa com o Joacão (outro apelido do Dachshund) no colo e o caroço de manga – a prova do crime – na mão. E... surpresa! Um cano da vizinha do andar de cima tinha rompido e, no nosso corredor, jorrava uma cachoeira. Olha que coisa boa; estar em plena cidade e usufruir das delícias da vida no campo! Só que não!

O porteiro, que costuma ser um sinônimo  de “faz-tudo”, mas no meu prédio é um “faz-nada”, não tomava uma providência. Eu suo a camisa para não conjugar o verbo “irritar” na voz reflexiva. Abre parêntese, inclusive sou uma mulher que deveria valer ouro, porque vim ao mundo sem TPM – fecha parêntese. Todavia, fui obrigada a sair do “modo avião” a fim de que o dito-cujo zelador, que por nada zela, levantasse o traseiro de seu posto – e supostamente tentasse identificar o registro da coluna d´água. Mas ele estava de braços cruzados (bem vi na TV que mostrava a portaria), provavelmente me xingando, o que não posso jurar, uma vez que as câmeras ainda não têm som. Quer dizer, não dá para trocar de roupa no elevador – vai que o porteiro está atento –, mas super rola de soltar um pum (com cara de paisagem, para não se denunciar), fazer confidências ou pronunciar palavras de baixo calão, porque o cinema é mudo no térreo.

Quem diria que nosso edifício Dalton, com ares modernistas, construído na década de 1960 pelo escritório de arquitetura dos Irmãos MMM Roberto, já é parte do futuro profetizado pelo romance Admirável Mundo Novo, com câmeras espalhadas por todos os cantos que tudo registram, mas ainda tem um elevador social que funciona dia sim, dia não. 

Depois voltei ao meliante, que havia ingerido o objeto agora identificado e confirmado. A batalha do dia ainda estava em curso, havia mais tarefas a serem vencidas. Com um certo malabarismo, optei por vestir o Quim com uma fralda de bebê – fazendo um buraco para o rabo –, porque fralda canina não é vendida na esquina. Tanta Drogaria Pacheco por aí (acho até que valendo mais comprar ações da farmácia do que da Petrobras), e nenhum visionário ainda pensou em abrir uma versão Pacheco´s Pet 24 horas... Fica a dica!

Bem, nesse dia que não terminava, ainda assisti, na sala democrática, à epopeia do NETFLIX. Em outras palavras, já inventaram controle remoto, wi-fi que pega até na banheira, programas que baixam filmes nos tablets, e amanhã vai dar para ver filmes até no relógio, mas as brigas pelo sofá continuam. Quem tem uma família em que não se escuta a frase “Pedi primeiro!”? Esse é um prazer dos celibatários convictos que ouviram a voz da razão e não só não casaram, como não procriaram. Mas, sinceramente, vou entregar os pontos e entrar nesse mérito em outro momento – ah, tou sempre adiando as coisas.

Sabe aquelas horas em que você não sabe se hasteia a bandeira branca ou se tem um acesso de riso? Até porque chorar não adianta... Bem... C'est la vie, que nem sempre é La vie en rose.



terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você.

JC, judia, tem um pretendente católico. O rapaz leva um terço no carro. Quando soube disso, logo indaguei se o santo rosário ficava pendurado no retrovisor, o que esteticamente vocês sabem... Mas, graças a Deus, o artigo religioso fica guardado no porta-luvas, esse compartimento do veículo que armazena os mais variados itens relevantes aos motoristas precavidos ou esquecidos pelos condutores de outro naipe, como eu. Aliás, outro dia, do nosso porta-luvas, que em muito se assemelha a um “achados e perdidos”, brotou um quipá. O solidéu é usado pelos judeus em ocasiões solenes e de devoção para lembrar que Deus está sempre nos observando. Como o quipá foi parar ali ao lado do CD da Mart'nália? Essa é a pergunta que deveríamos fazer ao rabino de uma congregação mais liberal. Talvez Deus quisesse escutar “Vou arrancar sua saia e pôr no meu cabide só pra pendurar / Quero ver se você tem atitude e se vai encarar”.

Religião nunca foi uma questão levada a sério na minha família. Encaramos o judaísmo mais como uma questão cultural do que religiosa. O primeiro jantar oferecido pelos meus pais recém-casados aos amigos da comunidade tinha como menu:  casquinha de siri (os siris foram comprados vivos na Barra e limpos um a um), lombinho de porco e musse de chocolate. Os convidados eram judeus ortodoxos, clientes do escritório de advocacia do meu pai, que não achou relevante mencionar à jovem esposa a religiosidade dos convivas. Nem o cafezinho eles tomaram! E aposto que nessa noite meu pai perdeu uma boa fatia do mercado. Já minha mãe ganhou alguns quilos extras dando conta sozinha dos pratos salgados e da travessa de sobremesa.

Por isso, estranhamos quando JC nos comunicou que faria bat mitzvá. Ritos de passagem que marcam o fim da infância e a passagem para a vida adulta são comuns em várias culturas. No judaísmo, ao completar 13 anos, o jovem atinge a maioridade religiosa e, pela primeira vez, é chamado a ler a Torá. A palavra mitzvá significa mandamento que deve ser cumprido e início de uma “conexão” com o Todo-Poderoso. A festa merece destaque igual ao dos casamentos no calendário familiar, mas normalmente é reservada aos descentes masculinos na árvore genealógica. Pois é, o machismo está presente nas três grandes religiões monoteístas. Mas, se assim foi posto, não é obrigatório que se perpetue.

Suely trabalha com psicóticos. Tem uma paciente que acha que é Deus e só aceita assim ser chamada. Muitas vezes, ela liga para o posto de atendimento e diz: “Advinha quem está falando?”. Quem erra a resposta é claramente um infiel, porque não está ouvindo a voz divina. E, assim como na vida real, Deus raramente aparece... mas telefona com frequência. Outro dia, Deus estava com um problema sério, vestia saia. “Onde já se viu Deus de saia?!” – questionou. Suely, do lado de cá da linha, tentou ajudá-la, sugerindo que procurasse outra opção em seu armário. Mas parece que era o único figurino disponível. Então Suely tranquilizou-a: “Assim é melhor, não é, porque reforça o disfarce?”.  As duas concordaram, e Deus ficou feliz com sua saia de algodão lá em Irajá.

No candomblé, não há diferença entre o sacerdócio feminino e o masculino. Mãe de santo manda tanto quanto pai de santo. E curiosamente a casa mais antiga de candomblé, a Casa Branca do Engenho Velho, fundada no século XIX, desde seu início só aceita iniciar mulheres. O candomblé surge como a primeira instituição feminista no Brasil. Cabe uma pesquisa do espiritismo, hinduísmo, budismo etc. No meu humilde ponto de vista, acho que Caetano tem razão: “Deus é menino e menina”...

Voltando à equação JC / bat mitzvá e nossa estranha família, tentamos, a princípio, dissuadi-la. Se ela queria uma festa, a gente podia fazer uma, não necessário o lance da sinagoga. Mas não, JC tinha decidido que queria afirmar sua religião. O pai foi batizado, eu nasci do ventre de mãe judia (logo, sou judia), mas festejamos o Rosh Hashaná, o Yom Kippur e durante muitos anos, no Natal, contratávamos um Papai-Noel que vinha de táxi de Niterói, porque não íamos perder essa festa. Só que uma vez substituíram o Bom Velhinho, e o novato, não conhecendo o protocolo da maison, começou sua fala dizendo que estávamos ali reunidos para comemorar o nascimento de Jesus. Foi necessária a rápida intervenção de um tio que cochichou em seu ouvido: texto errado, amigo.

Então, se JC queria ter aulas de hebraico, conversar com o rabino e ler a Torá, ok. “Roma locuta, causa finita”, Roma já falou, fim de papo! E verdade seja dita, o avô materno, que só tem netas, ficou bem contente. E diferente do personagem principal do romance Buddenbrooks, de Thomas Mann, que decide que é o último de sua linhagem, JC decidiu dar continuidade à tradição dos Chindlers. Ela seguiu à risca o protocolo, mas a gente não ia conseguir tirar 10 em religião.

Eu estou sempre naquele tempo verbal “ainda não cheguei lá” e, assim, todos os preparativos são feitos nos últimos minutos do segundo tempo. Faltando apenas três semanas para a festa, comecei a produção dos convites. Achei que ficava sofisticado uma citação da Bíblia em hebraico com tradução em português. Alguém da sinagoga sugeriu este trecho “Bendito seja nosso D´S Rei do universo que nos fez viver, que nos fez existir e que nos fez chegar a esse momento”. Mas aí os problemas começaram. Nossos computadores não tinham teclado com as letras em hebraico e ainda não havia sido inventado o Google translate. Encarecidamente solicitamos à secretária do rabino que o trecho fosse traduzido e enviado por e-mail. Os funcionários do templo alertaram que não daria certo, porque não tínhamos o programa para essa língua, e o texto perderia o formato original. Foi preciso enviar um portador à sinagoga para que ele nos trouxesse um disquete. Abrimos o texto no programa de imagem, e eu, que apenas conheço as letras e sei que hebraico se escreve ao contrário, ou seja, da direita para a esquerda, confirmei para o designer que estava tudo certo, de modo que os convites foram impressos e distribuídos. Como vocês verão, me saí uma grande revisora...

Na véspera da cerimônia, como era de bom tom, meus pais foram entregar em mãos um convite para o rabino, que ao lê-lo arregalou de tal forma os dois olhos que estes ficaram mais salientes do que os do ator Marty Feldman. Minha mãe saiu de fininho da sala e me ligou correndo, perguntando quem tinha me passado o texto. Nós, que não valemos nada, já começamos a rir, imaginando que a secretária havia trocado os disquetes e nos enviado uma nota fúnebre convidando para a reza de algum falecido Jacob. Ou quem sabe o anúncio de um Brit Milá (circuncisão), esse, sim, um evento religioso exclusivo dos meninos, por motivos óbvios. Infelizmente, em seu escritório, o rabino não compartilhava do mesmo senso de humor. Mesmo atarefado com os preparativos de sua prece, ele precisava descobrir o que havia acontecido. E não foi necessário contratar nenhum Sherlock Holmes para chegarmos ao veredito final: a culpa era toda do Corel; o texto não havia sido salvo como imagem, e o programa misturou todas as letras ao abrir o arquivo. Em suma, em nosso convite não estava escrito nada em hebraico. Adoramos! O que são as grandes celebrações sem boas histórias para contar no futuro?

Devo dizer que 60% dos nossos amigos são ateus, católicos, espíritas, flamenguistas, tricolores, vascaínos e uma minoria botafoguense. Dos 40% judeus, metade, familiares, e apenas 2%, alfabetizados em hebraico. Então ninguém reclamou. O único receio da minha mãe era Paulete, mas essa amiga 100% judia, graças ao Senhor um tanto quanto dispersa, apenas comentou “achei muito original o convite escrito em aramaico!”.

É no bar mitzvá que o jovem sobe, pela primeira vez, à Torá. Essa chamada recebe o nome de aliá (subida) e compreende a leitura, de um trecho do texto bíblico, iniciada e finalizada com uma benção. 

Já profetizava o filósofo alemão Nietzsche no conceito do Eterno Retorno. "E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência (...) A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!".Tudo já aconteceu e acontecerá de novo!

Voltamos ao primeiro jantar dos Chindlers... A parashá, o texto da Torá, que JC recebeu para ler era a respeito de comida kosher. Aposto que o trecho foi escolhido a dedo por Deus para enquadrar a nossa família. Kosher são alimentos que foram preparados de acordo com as leis bíblicas. Entre as carnes de animais terrestres, poderão ser kosher apenas as de ruminantes com casco totalmente fendido, como as carnes de boi e carneiro. O porco, embora tenha o casco fendido, não é ruminante, portanto, lombinho de porco nem pensar! Do mar, só os peixes de barbatanas e escamas, tais como sardinha, salmão, robalo e atum. Frutos do mar, como camarão e casquinha de siri, estão fora também! Então, no almoço que sucedeu à solenidade do bat mitzvá com o rabino convidado, não rolou linguiça no feijão!

                               

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Zoológico

Tenho duas filhas. Uma jogou os dados e andou cinco casas no tabuleiro, pulando olimpicamente esta fase negra, mais maligna que a peste da Europa: a adolescência. Mas ninguém ganha duas vezes na loteria. A caçula, por sua vez, parece um suco Tang – um concentrado teen que venho diluindo aos poucos, porque ninguém é de ferro. Um dia, no passado, quis ter quatro meninas. Mas, como me falta a razão, o destino foi bondoso e me poupou da multiplicação.

Também tenho um Dachshund batizado pelo ex-marido de Joaquim, que ganhou a opção dos prenomes: Quincas ou Joacão. Joaquim é uma homenagem ao grande Joaquim Maria Machado de Assis é claro. Duvido que o escritor acadêmico, tão solene como era, tenha ficado honrado com a lembrança. Mas esse não foi o único equívoco...  Cássio, o ex, não faz parte da categoria de seres humanos tarada, ou pelo menos com apreço, por animais domésticos. Já eu e suas filhas nascemos com pulgas no sangue. Por isso, a batalha para que um cachorro entrasse pela porta de casa foi árdua. Ao fim e ao cabo, ninguém venceu. Mas só chegaríamos a essa conclusão tarde demais.

O primeiro erro foi estético.  Adoro Boxers, Buldogues, Boston Terrier e Pugs, raças de cara amassada. Talvez no inconsciente, ache que justamente o focinho, a parte da anatomia que define os cães, não lhes caia bem.  E aí veio um Dachshund mais narigudo que o meu avô materno – e olhem que o vovô Beto tinha uma nareba de fazer a festa de qualquer caricaturista! Como ganhamos o cabo-de-guerra e conquistamos o direito de ter um cão, o ex determinou a raça.

O novo integrante da família, que veio habitar nossa maison com suas quatro patas e seu focinho pontudo, de cara mostrou-se uma opção pouco adequada para quem tinha uma filha pequena. Bassets não são nada tolerantes e não gostam de crianças. E, para piorar, bebê Beloca, a mais nova, tinha – e tem até hoje – uma forma única de acarinhar os animais. Ela os aperta em excesso, sendo igualmente recompensada. Dachshunds não são cães pequenos, como pensei, apenas têm patas curtas. Mas a mordedura é de tubarão. Assim, quando Joacão atacava, assistíamos a uma cena de filme de terror, em que o ketchup era sangue de verdade... Em dois anos, nossa caçula tomou quatro vacinas antirrábicas, isso porque a injeção tem validade de seis meses. Quando a dose estava para vencer, já íamos lembrando-a para que ficasse mais precavida, o que, é óbvio, não adiantava de nada. A enfermeira do posto médico, que devia ter um humor semelhante ao da nossa família, uma das vezes comentou: “Menina, tu é gostosa pra cachorro!”.

Quem é distraído e tem coração mole sempre pode ceder e acolher mais um membro na família. GD, minha filósofa de plantão, tem essa linda máxima: “O que é um punzinho para quem está todo cagado?”. Foi assim que abri a porta para mais um filho, um cão da raça Pug que atende pela alcunha de Zé. Quando Zé faz besteira, o nome ganha pompa: “Quem fez xixi aqui, Dr. José?”.

Pug Zé é "filho" da minha primogênita e do namorado Luís Roberto Graça Couto. Sua primeira infância foi passada em Botafogo, onde deveria ter vivido toda a sua vida. Mas ele é fruto de um relacionamento desfeito, como o de tantos outros jovens da geração que nasceu depois dos anos 1990 – e principalmente no século XXI –, quando sequer os aparelhos eletrônicos duram mais do que um ano, nem os lençóis resistem a qualidade “branco total” dos sabões em pó e os relacionamentos terminam por mensagens de texto.

Zé, como todos os Pugs, é enrugado (completamente avesso a estética do botox), ronca à vera (culpa do focinho achatado que provoca gracinhas do tipo “bateu de frente”), tem pelo macio e cheiro de Cheetos. Já seu “papai” Luís Roberto é um rapaz moreno, bonitão, com farta cabeleira negra, características que, unidas ao nome duplo com esse R sonoro de RRRRoberto, lhe renderiam o papel de protagonista em uma fotonovela, as novelas impressas que só quem tem mais de vinte e cinco anos já leu ou sabe o que é.

Esse namoro foi longo e, apesar da aprovação familiar com bandeiras tremulantes pró Luís Roberto, um dia terminou.  Foi quando o jovem ex-casal, sem consultar um advogado da vara da família, decidiu, em comum acordo, pela guarda “compartilhada” do filho canino: primeiro dia com a sogra Dani, segundo dia com a sogra Dani e para sempre com a sogra Dani. Por isso, agora tenho dois cachorros machos e uma poupança enorme para garantir a lavagem dos tapetes, onde eles cismam de fazer xixi para marcar território.

Mamífero, como os outros, mas da categoria dos roedores, a coelha Funny Bunny chegou em um Natal. Já vou dizendo que veio sem ser convidada por mim, mas, como sou maluca, logo me tomei de amores. Essa coleciona heterônimos, como Fernando Pessoa, embora não publique poemas e não responda a nenhum deles. Faz-se de surda, "com ouvido moucos" como diriam os portugueses. Finge que as grandes orelhas de nada servem. Foi batizada de Alice, mas o nome não pegou. Virou Tuelha. Eu escolhi Funny Bunny, inspirada na embalagem do saco de ração e na cara da criatura. Mas o melhor nome é o de guerra – Churchill –, escolhido não pelas famosas frases do ministro inglês, mas sim por sua aparência rechonchuda, seu physique du rôle.

Interesseira de marca maior, só aparece porque gosta de ser coçada e tem boca nervosa. Come folhas de cenoura, de brócolis, de couve. Cenoura, beterraba, palmito. Ração. E de sobremesa, sua iguaria predileta são as sandálias Havaianas. Funny mora embaixo da cama da filha caçula e tem os mesmos olhos pretos da sua “mãe” Bebel. Dizem que os cachorros se parecem com seus donos; pelo visto, os roedores, também. Funny não faz jus ao nome e tem outra coisa em comum com a dona: o humor! O que não é exatamente uma qualidade...

Um coelho fêmea não marca território, mas tem TPM quando entra no cio. Não era nada de mais até descobrirmos que as coelhas entram no cio a cada quinze dias... Churchill também é fruto de um relacionamento desfeito. Então, fica a dica de quem tem experiência no assunto: não deixe nenhum namorado dar de presente “coisas fofas que se mexem” no Natal ou nos aniversários.

Bem, chegamos ao gato...  Pois nosso lema agora é: quem tem uma filha tem outra filha. Quem tem uma filha tem outra filha e tem um cachorro. Quem tem uma filha tem outra filha, tem um cachorro e outro cachorro. Quem tem uma filha tem outra filha, tem um cachorro e outro cachorro e uma coelha. Quem tem uma filha tem outra filha, tem um cachorro e outro cachorro e uma coelha e quem sabe um gato. Devido às incompatibilidades já previstas, o felino foi adotado em parceria com os porteiros do prédio, motivo pelo qual atende pela graça de Edifício Dalton e mora na portaria do 232. Ou melhor, mora às vezes, porque, muito enciumada, descobri que ele também recebe afetos dos seguranças da Churrascaria Gaúcha. Edifício Dalton é um malandro carioca de olhos verdes que habita vários corações e come do bom e do melhor.



Obs: A saga das hamsters será um outro capítulo.

702, um apartamento laico

Um estado laico é oficialmente imparcial em relação às questões religiosas, não se opondo a nenhuma crença. Assim é esse apartamento do sétimo andar, onde judeus não praticantes convivem com protestantes, ateus, cristãos, seguidores da doutrina japonesa Perfect Liberty e quem mais chegar. Infelizmente não contamos com moradores ou habitués hindus, siques ou muçulmanos. Mas, como bons cariocas que somos, acendemos de bom grado uma vela para os santos do Candomblé e jogamos flores na virada do ano para Yemanjá.

Foi nesse território democrático religioso que contratamos uma diarista testemunha de Jeová. Glaucia tem vários atributos: passa roupa bem, não desgosta de cachorros e exprime-se em um português corretíssimo, sendo inclusive tão crítica que lhe causa aflição escutar frases em que o locutor – usuário do português – ignora o plural dos verbos quando mais de um sujeito participa da ação. 

Acontece que aqui também trabalha Gabriela Graciosa da Fonseca, que foi ativa participante da Marcha das Vadias, que não é uma religião, mas é???? Ih, não sei explicar direito. Bem, Graciosa adora botar lenha na fogueira e, talvez por isso, perca vários minutos do seu dia criando apelidos, como o que veio a receber a obra Wall Clound produzida com câmaras de ar de pneus. Um detalhe de Wall Cloud seria usado na capa do material educativo em Minas, quando foi instaurada a dúvida, semeado o pomo de discórdia: não podemos escolher essa imagem porque parecem perus. Perus? Como assim? É, parecem pênis! Aí um grupo se reuniu para debater o assunto, dividindo-se em um Fla x Flu. Metade da torcida levantando a bandeira do salame e a outra metade do Maracanã, em questão, defendendo um ponto de vista oposto, mas complementar: que não eram pintos, o close da obra lembrava a genitália feminina. E havia aqueles, que como eu, afirmavam que todo mundo só pensa naquilo, porque eram apenas pneus. Venceu a bancada da tradição e dos bons costumes, e a obra saiu da capa, sendo gentilmente conduzida para uma posição menos visada, no interior da peça gráfica. Mas Graciosa, que já teve sua foto de perfil do Facebook com uma calcinha na cara, não ia deixar barato... Ela imediatamente apelidou Wall Cloud de Piruetas, um casamento de perus + bucetas.

Bem, mas tudo isso foi para chegar ao caso que vem a seguir. Inaugurou a exposição Picasso e a Modernidade Espanhola. Grande sucesso de público e crítica. Junto com as pinturas a óleo cubistas, vieram esboços produzidos para a monumental Guernica. Decidimos fazer uma réplica tridimensional em isopor da Cabeça de cavalo para que os visitantes cegos pudessem perceber o desespero representado na língua pontuda e na boca escancarada do animal. Eu iria para a inauguração em São Paulo e levaria comigo a escultura em isopor.

No corre-corre do meu dia, não tinha tido tempo de fazer as unhas, o que é uma displicência quando se tem uma festa. Por sorte, Glaucia tem mais uma qualidade que ainda não mencionei: ela é boa manicure, faz até unhas decoradas com pequenos desenhos, de modo que me aproveitei desse seu dote. Estávamos nós na seguinte posição: eu, com a mão estendida sob seus cuidados; ela, tirando minhas cutículas com o alicate. Felizmente não sou homem, Glaucia não é barbeiro, e seu instrumento cortante não era uma navalha na minha garganta. Nessa justa hora, Graciosa resolveu lembrar-me de pôr na mala a escultura e não resistiu à tentação de usar o nome em espanhol: Pega o Boceto do Cavalo! – ela disse. Nossa funcionária – testemunha de Jeová – teve um choque, não anafilático, mas sim auditivo, soltou um grito escandalizado, e eu quase fiquei sem um dedo.




sábado, 14 de novembro de 2015

Presentes do meu pai

Lá em casa, trabalhou uma senhora chamada Irene. Sabíamos que vinha algo bom toda vez que Irene começava uma frase com “Tenho para mim...”. Duas das que me lembro: “Tenho para mim que morcego é rato velho que cria asas”. Outra: “Tenho para mim que nessa mata tem barulho de elefante” – aqui o ideal seria colar a foto da pedreira que ocupa os fundos do nosso apartamento. Passei algum tempo tentando imaginar um elefante, com dotes de uma cabra montês campeã olímpica, escalando em rapel o paredão de pedra que, graças ao constante trabalho dos passarinhos de reflorestamento, é pontuado por tufos de grama esparsos e que Irene poeticamente chamava de mata.

O primeiro parágrafo foi necessário para que não seja um plágio, e sim uma homenagem à Irene, a expressão usada para abrir este relato. Tenho para mim que os presentes surgiram logo após Deus arrancar uma costela de Adão e com esta criar Eva. De cinco mil setecentos e setenta e cinco anos atrás, a inauguração da primeira lojinha foi um salto na doutrina criacionista baseada no Gênesis bíblico. E meu pai deve ser um personagem original nessa linha do tempo que chega até as escadas rolantes dos shopping centers e o contemporâneo comércio da internet. Ele simplesmente adora comprar presentes, mas não dá a mínima para ter coisas e gosta menos ainda de recebê-las. Para que a ação lhe dê prazer, ela precisa ser uma via de mão única. E tanto quanto ele ama comer frituras – bife à milanesa, ovo frito, rolinhos primavera e Kentucky Fried Chicken (que o paladar dele tem certeza de que, sem sombra de dúvida, é um manjar dos deuses do Olimpo), Zequinha ama os vendedores, sem distinção de credo ou geografia.

Avenida Rio Branco, 109. De lá vinham, dentro de uma pasta de executivo modelo 007, cigarrinhos de chocolate ao leite da marca Pan, quando fumar era fino, e minha avó, com suas unhas impecáveis pintadas de esmalte vermelho escarlate, usava piteiras. Minha mãe recebia charutos de massa marzipã (pasta de amêndoas, açúcar e castanha de caju) cobertos com chocolate amargo da Kopenhagen. Também recebíamos moedas de chocolate, talvez para estimular nossa educação financeira.

Mas, como já disse, Dr. José é magnânimo, não existe hierarquia no afeto que sente pelos comerciantes, e os camelôs farejaram isso. Pulamos anos, agora os filhos já têm filhas e, portanto, meu pai já é avô. Reparem que não uso o plural masculino, porque a última geração é formada apenas por pererecas (mas esse é um assunto para outro texto). Antes de a polícia cometer o perjúrio de isolar os vendedores de rua no Camelódromo, um se instalou em frente à saída do prédio de escritórios do número 109. Esse profissional do varejo, com muito tino comercial, a cada semana ou quinzena trocava a mercadoria que vendia. Foi assim que ganhamos os presentes mais úteis que jamais teríamos imaginado adquirir. Por exemplo, uma noite papai chegou com umas cinco chaves de roda em cruz que servem para desaparafusar pneus, embora eu nunca tenha sabido trocar um. As netas ainda ganham agendas ilustradas com personagens de desenhos animados, embora uma já esteja terminando a universidade. Não me lembro de ter recebido aquela raquete elétrica de matar mosquito, que talvez tivesse sido de grande serventia em tempos de Dengue, mas minha memória registrou as lanternas de diferentes modelos e funções. Minha mãe também lembrou, num desses domingos, das cartelas de pilhas.

Todo mundo quer ver seu progenitor feliz, e eu estou longe de ser diferente, de modo que só pude alegrar-me quando soube que os ambulantes foram pouco a pouco escapando do confinamento do Mercado Popular da Uruguaiana. Meu português não deu conta de compreender a definição que encontrei no próprio site do Mercado Popular da Uruguaiana se autointitulando “o mais famoso centro comercial informal carioca”. Caro leitor, defina o termo "informal" usando um sinônimo que seja ok para o fisco. Valendo dez pontos! Bem, como papai não é advogado tributarista, tampouco advogado da União, não cabe a ele intervir nessa seara.

E foi assim que, num piscar de olhos, a viela que dá na entrada do metrô da Uruguaiana estava tomada pelos mercadores apregoando suas bugigangas. Numa dessas barraquinhas, um senhor distinto anunciava camas de cachorros, muito bem-acabadas por sinal, a preços sedutores. Essa compra beneficiou minhas irmãs de quatro patas, as duas cadelas labradoras, que hoje se refastelam em amplos colchões forrados com ossinhos coloridos. E devo confessar que, tendo nas veias o sangue paterno, não resisti e também virei freguesa. Meus dois filhos caninos tiram boas sonecas em seus colchonetes.

Agora chegamos à mais nova aquisição da série "camelôs do papai": de uma caixa azul, onde (aposto!) se lê Made in China, saiu um pau de selfie. Um dos cinco presentes que formaram o kit comemorativo, que ele montou para minha mãe, das cinco décadas de casamento, das bodas de ouro do casal. O regalo foi de cara enjeitado por D. Ana, mas papai, como um bom advogado que é, tem sempre um argumento: "Vai ser igual ao ipad, Ana, que você falou que não sabia por que precisava de um e...". Então, provavelmente, num futuro próximo, teremos vários selfies familiares usando esse utensílio que não é o último grito da moda, mas só recentemente chegou ao comércio de rua das imediações do escritório da Avenida Rio Branco, segunda casa do Dr. José.









segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Encontros

Nem sempre o príncipe vem montado em um corcel branco... Aliás, eu diria que, em toda a minha vida, o único corcel que conheci era uma marca de carro da Ford com nome de cavalo e que aparecia em uma propaganda cuja trilha sonora era do grupo de rock inglês Emerson, Lake and Palmer. MM, meu HD externo, pediu para acrescentar no verbete “Príncipes são iguais aos unicórnios, pouca gente encontrou unzinho pela frente. E quem pegou deve ter achado um tédio só.”  na hora de aposentar o Antônio Houaiss...

Qual será o motivo de resistir, ainda, no imaginário de mulheres adultas, a figura do príncipe encantado? O Reino Unido não tem ajudado muito nesse quesito: Charles é um exemplar que veio bichado de berço e deveria ter sido recolhido em um recall há décadas. William também já está ficando careca. Albert, do principado do Mônaco, nunca despertou suspiros, mesmo sendo filho de quem era: da inesquecível Grace Kelly. Naruhito do Japão? Pula também. A fada do encantamento faltou ao batizado de todos. Picolés de chuchu legítimos.

Mas, há dois séculos, tivemos um modelo de príncipe versão trópicos, que esse, sim, valia a pena! Quem experimentou aprovou, pelo menos é o que dizem por aí. Sua alteza real, legítimo descendente das mais nobres dinastias monárquicas europeias, foi batizado com nada menos que dezoito nomes: D. Pedro de Alcântara (...) de Bragança e Bourbon, mas assinava suas confissões amorosas com o singelo “O DEMONÃO”. 

GD conheceu um rapaz na internet discada. Hoje conhecer pretendentes on-line é moeda corrente, mas isso foi antes do falecido (ou devo dizer aposentado?) Orkut, em uma sala de bate-papo na UOL. Jogaram muita conversa fora, ficaram quase seis meses nessa. Depois de um semestre, provavelmente com pontuação necessária, de ambos os lados, para evoluírem à segunda fase: trocaram fotos. Ele era alto, louro e surfista. Ela era morena e gostava de samba. Decorrido mais um punhado de dias, não sei dizer quantos, antes de finalmente marcarem o primeiro date. Era uma dupla jovem, com pouco passado e muito futuro pela frente. 

Analisando friamente, as redes sociais ressuscitam a figura do amigo imaginário da nossa primeira infância, só que agora já somos grandinhos... Bem, foi só uma divagação. 

Tem gente que, quando acha um bom interlocutor do outro lado, prefere manter o personagem vivo a arriscar encontrá-lo em carne e osso. Muitas vezes o cavaleiro dos sonhos não se enquadra no figurino desenhado pela modista da nossa imaginação, e aí é uma lástima. Lembrei daqueles programas de auditório em que o candidato-vítima está isolado em uma cabine e precisa responder: você troca mil reais por uma bala Juquinha? Na vida é assim, nunca sabemos se vale a pena trocar. Você troca um sonho por...? Viver é um risco, uma aventura ou desventuras em série.

Escrever em português é uma droga. Falar é muito mais simples. Todo mundo pode falar ao mesmo tempo, sem regras. Basta sentar em uma mesa de botequim para comprovar. Só que no papel tem ordem. Porém, não posso evitar interromper a mim mesma com outros causos que me vêm à memória. Minha vizinha, MM, certa vez relatou que seu primeiro encontro foi em um ponto de ônibus, quando ela ainda tinha franja e gostava de mascar chicletes Ping-Pong. Ela e o rapaz estavam esperando a condução e ficaram ali se olhando, naquele chove-não-molha de pré-adolescente, até um ter coragem de puxar conversa. Ela perguntou o nome dele: Ben-Hur – ele respondeu. E o 570 chegou! Hoje, refletindo a respeito, ela desabafou: “Eu devia ter entendido nessa hora que a minha vida amorosa estava fadada ao fracasso!”.

Uma noite, saindo da sala virtual, M convidou GD para sair, e ela topou. Ele veio buscá-la num carro que não era um corcel e, quando saltou para abrir a porta, uma fita métrica invisível, de cara, denunciou ser o príncipe (não tão encantado) vários centímetros mais baixo do que a foto fazia parecer.

D Pedro II, primeiro monarca brasileiro, nascido deste lado do Atlântico, não tinha a pegada do pai. O pobre passou por situação bem mais drástica que essa. Em priscas eras, quando o Photoshop nem ousava existir, mandaram para o nosso infante um relicário com um retrato de Teresa Cristina Maria de Bourbon-Duas Sicílias, filha caçula do Duque da Calábria. Os pintores capricharam no desenho, mentiram um pouco e ocultaram outro tanto. Mas é público e notório que, ao conhecer a esposa, com quem casara por procuração, D. Pedro II teria cogitado pedir a anulação do matrimônio por conta dos minguados atributos físicos da moça. A lenda diz até que ele até chorou, e foi Dadama, sua ama-de-leite, que o convenceu a manter o contratado porque a união era uma questão de Estado. E não me venha dizer que agora entendeu aquele olhar melancólico das fotos do nosso imperador barbudo, porque no meio do caminho teve a Condessa de Barral. E mais não conto! Os curiosos podem pesquisar sobre essa pulada de cerca na Biblioteca Nacional.

Juro que não vou mais postergar esse encontro, porque já muito me atrasei nesse relato – e isso não é um testamento, apenas um primeiro capítulo. Bem, GD entrou no bólido (assim eram chamados os carros velozes no tempo da minha avó, não no presente que estamos, mas uso para dar mais graça ao texto), e foram comer uma pizza. O rapaz estava bem animado porque soltou: “Você é muito mais bonita pessoalmente. Na foto tinha nariz de batata”. Imagino que ele deva ter achado que fazia um elogio, mas, de certo, o herói romântico Cyrano de Bergerac consideraria tal abordagem um verdadeiro desastre. Mesmo assim, a noite foi agradável e, antes de a moça sair do carro, rolou um beijo. Ela achou gostoso, mas ele era baixo...

Nessa época, GD fazia uns bicos. A mãe não facilitava, e a mesada nem pagava o ir e vir de buzunga e o lanche. O ditado diz que beleza não põe mesa. De certo, mas paga o restaurante. A moça bem-apessoada tirava uma grana trabalhando como promotora e, naquela semana, tinha conseguido uma divulgação da cerveja Cintra no supermercado Mundial de Copacabana. Minha prima Miriam, moradora do bairro, só chama o tal supermercado de Imundial! 

Cintra não é nenhuma Brahma ou Skol, não é lá muito saborosa, tampouco encorpada, e o sujeito precisa beber um bocado para dar onda. O que não era exatamente uma questão, porque era “de grátis”. E, devido a essa grande qualidade, já que de graça até injeção na testa, o balcão convertia-se em uma sucursal do inferno. Era um amontoado de gente, que mal dava para piscar. Por isso a moça, enquanto enchia os copos, para que o dia ficasse mais divertido, bebia também. E aí, no intervalo, um pouco mais pra lá do que pra cá, ia para um pequeno vestiário feminino, abria umas caixas, estendia o papelão no chão – checando antes se esse, sim, era encorpado – e tirava uma soneca. Lembrando que estamos no Imundial!!!

Estava a princesa desta história, GD, deitada eternamente em berço esplêndido, tendo na fuça o pé cascudo de uma funcionária do supermercado, que roncava no papelão à sua frente, quando tocou o celular. Em seu campo de visão, resultado da equação calça apertada/soneca, um trio de mulheres pagava cofrinho. No celular, o príncipe já convertido em abóbora. 

Mulher é um bicho estranho que tem regras que não fazem muito sentido. Ou melhor, sentido algum. Essa moça ficava entediada quando o bonitão ligava no dia seguinte. Como assim deu um beijinho ontem e já  se achando?! Sem empolgação, desconversou e voltou para os braços de Morfeu. Tinha só meia hora de intervalo e não pretendia desperdiçá-la.

Se a história terminasse aqui, não teria romance, mas vamos em frente. Hoje, amanhã, depois de amanhã. O fato é que três dias se passaram, e o telefone da nossa protagonista não tocou. Opa! Permanecendo o silêncio nos dias subsequentes, entra a lógica sem lógica feminina. Pera lá, quer dizer que ele não me quer? Parece a lógica do ex. Ninguém quer ex, mas basta uma sirigaita se engraçar com ele, que 90% da população feminina volta lá e faz xixi no poste para demarcar território. 

A moça, agora indignada, tomou a iniciativa e discou o número do varão. Do outro lado, o moço atendeu e perguntou: “Quem  falando?”. E ela: “Quem  falando? Como assim? Sou eu!” Aí o cara mandou muito e respondeu na lata: “Eu te dei o maior beijo gostoso e, no dia seguinte, você me esnobou. Deletei o número”. E então? Um tempo depois, GD teve um upgrade na carreira e foi transferida para o Extra de Vila Isabel. Mas aposto que não é isso que vocês estão se perguntando. Rolou um happy end? “Of course my horse!” Na semana passada mesmo, estive na piscina do Olympico Club, na Pompeu Loureiro, em Copacabana. No chiquerérrimo clube, rolava um churrascão regado a muito cerveja, da boa, e os anfitriões eram GD e seu príncipe M – não mais virtual – que hoje têm um casal de filhos.